sexta-feira, 31 de outubro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
o meu amigo mike ao trabalho

[CÂMARA ON]
Por vezes vemos um quadro de pintura contemporânea e não percebemos o seu significado. Ou por falta de contexto, ou por pura preguiça em olhar com olhos de ver. Ora bem, aqui está a forma ideal de ultrapassar esse estigma e perceber a forma como um quadro deste género é pintado. O filme envolve-nos em todo o processo criativo: desde a escolha da tela até à simples espera do artista a olhar para o quadro à espera que este o diga o que fazer. Michael Biberstein é o artista, Fernando Lopes é o realizador. O primeiro expõe a sua forma de criação enquanto o segundo nos mostra a sua visão dessa mesma forma.
Vamos por partes: o processo criativo de Michael consiste em sobrepôr camadas de tinta sobre tela molhada, uma por dia, de forma a que a cor resultante seja sempre uma incógnita ao final de cada dia, e uma surpresa no dia seguinte (devido à secagem natural da tela). Assim, a obra não é apenas parte integrante da criatividade do artista, mas também da própria personalidade do quadro e do ambiente que o rodeia (além da "osmose" entre diferentes camadas, ou seja, a forma como diferentes dias de trabalho interagem entre si). Toda esta história de amor, esta intimidade entre quadro, artista e ambiente, é registada por uma pedra colocada à frente do quadro onde Michael deita os restos de tinta não usasa, no final de cada dia. Assim, a pedra surge como um diário e, na verdade, acaba por ser a entidade que mais sabe sobre a obra, a que acompanhou na primeira pessoa toda o processo criativo (o artista no final do dia ia para casa!).
Bom, agora o lado cinematográfico da coisa: Fernando Lopes trabalhou este filme com muitas sobreposições de imagem, como que diferentes camadas de filmes numa analogia ao próprio quadro. E devido à busca de "serenidade em movimento" levada a cabo pela obra, são frequentes as sobreposições com imagens de nuvens (boa metáfora). Além disso, brinca muito com o conceito de presença e/ou vazio da cadeira do atelier, onde o artista pensava sobre a obra (o tal diálogo com o quadro). Por fim, há que destacar a honestidade do próprio documentário, com Michael a falar sobre a sua própria relação com a câmara (o elemento perturbador, visto estar habituado a trabalhar sozinho no seu atelier).
[CÂMARA OFF]
blind loves - histórias de amor
E é estúpido pensar o contrário.
Este filme conta com uma simplicidade desarmante pequenas histórias sobre várias pessoas e a forma como elas encaram o amor. Estas pessoas são cegas mas poderiam não ser, esse é apenas um pormenor. E apesar das diferenças que esse "pequeno" pormenor implicam, essas pessoas conseguem levar uma vida amorosa como todas as outras. Com a "pequena" diferença que a veêm de outra forma. Aqui não há lugar para falsas assumpções de beleza induzidas pela nossa sociedade consumista de revistas e programas de televisão recheados e salpicados de caras bonitas (?), aqui conta apenas o interior. Como deveria ser. Ora a forma como estas pessoas vivem o amor com as suas mentes não corrumpidas é aqui retratado recorrendo à mais bela técnica de realização de cinema - nós não estamos a ver um filme, estamos numa cadeira na cozinha do casal de meia idade que apesar da cegueira corta as batatas para o jantar em conjunto, no pequeno quarto de hospital onde uma jovem grávida tenta acalmar a ansiedade de descobrir se a sua condição vai passar para o seu rebento, no rebelde casal de namorados que tenta a todo o custo ir acampar um fim de semana sem os pais saberem, na adolescente que fala num chat de internet com um rapaz desconhecido como qualquer outra adolescente, etc etc... um sem número de pequenas situações, pedaços de vida que sentimos, não como se fossemos nós (porque é impossível imaginarmos a forma de vida deles), mas como se fossem nossos amigos e conhecidos. É uma constante em todo o filme, essa aproximação que sentimos aos protagonistas. E é isso que interessa...
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
DocLisboa - My Enemy's Enemy

Apesar do nome feminino e infantil, este foi um dos maiores carniceiros nazis durante da 2º Guerrra Mundial. Conhecido por ter morto o líder da resistência francesa e exterminado 44 crianças duma creche judaica, era um mestre na “arte” do interrogatório e tortura, além de ter informadores por toda a Europa a trabalhar para ele. Por estas razões, depois da guerra, foi contratado a peso de ouro pelos serviços secretos americanos. Apesar da pressão exercida pela França para ser extraditado e julgado no país, sempre foi defendido pelos americanos em nome do combate ao comunismo.
Este é um filme que levanta a questão (sempre na ordem do dia): “até onde podem ir as autoridades em nome do combate ao crime?” Do lado americano a resposta é sem dúvida que os fins justificam os meios e, nessa linha de pensamento, não é estranho que eles tenham albergado e protegido um dos maiores assassinos da história, apenas para aproveitar os seus conhecimentos e contactos... Este “simpático” senhor ainda fez das suas na América Latina, onde organizou um golpe de estado para implantar uma ditadura nazi na Bolívia (o IV Reich dos Andes).
O documentário está construído de forma exemplar, apesar de pouco aventureira: consiste na sua maioria, em entrevistas e imagens de arquivo, aqui e ali seguidas por uma voz off sempre pertinente. Resumindo, é um filme muito interessante, que disseca de forma irónica a hipocrisia do Ocidente, que sempre se auto-intitulou de bom da fita, em oposição ao Médio Oriente, União Soviética, etc.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
DocLisboa - O Adeus à Brisa
Neste filme conhecemos a parte de Urbano Tavares Rodrigues num diálogo honesto, no qual é-nos revelada a vida do escritor tendo como pano de fundo os anos de ditadura em Portugal.
Imagens do Alentejo, que me derretem sempre e dão comichão à minha costela alentejana; música revolucionária, que tanto se tornou cliché de tão bradada que é nos programas sobre o 25 de Abril; histórias de juventude, sobre mulheres, viagens, amigos, familiares. Uma boa hora, bem passada.
Fiquei fascinado com a quantidade de livros que ele tem, especialmente quando soube que há muitos anos, grande parte da sua colecção tinha sido queimada pela censura do regime.
Conhecendo o realizador, Possidónio Cachapa - também ele escritor -, fiquei com um sorriso na cara por ver uma homenagem tão frontal, tão genuína e - ok, vou usar o termo - tão querida, que não lhe consegui dizer nada no fim do filme. Sorri, dei-lhe os parabéns, murmurei um "qualquer filme que mostre o Alentejo, para mim... lá no topo", e segui caminho.
Também não sei que dizer muito mais. Vejam o filme, que eu vou comprar uns quantos livros de Urbano Tavares Rodrigues, para ver se alguém destrona a anglofonia das minhas estantes.
Antes de terminar vou mencionar algo que estava nos créditos finais, na secção de agradecimentos. Era algo como "por estranho que pareça, obrigado a todos os sites de conteúdo nacionalista extremo por me mostrarem a estupidez dos tempos da ditadura neste país". Pena não conseguir citar exactamente, porque ironizar por escrito nunca foi o meu forte.
Com um sorriso, parabéns, Possidónio.
Sérgio Cruz Serra
DocLisboa - O Segredo
Uma curta de Edgar Feldman que, segundo o próprio, nasceu de "uma raiva minha, devido à vitória de Salazar naquele concurso imbecil da RTP." Com o público a dar-lhe razão, traduzindo-a numa grande salva de palmas, Feldman continua, dizendo algo que ficou como fantasma durante o visionamento do filme: "porque é que as pessoas votaram no Salazar, quando um português muito melhor que ele, António Dias Lourenço, esteve preso durante mais de 10 anos?"
Depois o visionamento. Muitos sorrisos e risadas num assunto sério, o que eu condeno mas, neste caso, até foram bastante convenientes. O senhor António Lourenço, que aos 94 anos revisita a prisão de Peniche, conta-nos com aquele jeito que só os velhotes têm, sempre falando com algum humor. Já não ouvia a expressão "ai, a gaita!" há imenso tempo.
A história: António Dias Lourenço foi um preso político que, de uma forma bastante inteligente, conseguiu evadir-se da prisão de Peniche, conseguindo passar 8 anos em liberdade, antes de voltar a ser preso novamente. "O bom filho sempre retorna a casa" foi o que lhe saiu à laia de cumprimento, dirindo-se ao guarda que já o esperava.
"O segredo" era o nome dado ao que conhecemos como solitária, nos filmes. Gosto de pensar que o Stephen King sabia a história deste senhor antes de escrever o conto que deu origem a Condenados de Shawshank.
Sérgio Cruz Serra
terça-feira, 21 de outubro de 2008
DocLisboa - Black Tears - um retrato de uma "boysband"
Fazem-se os últimos preparativos na sala de espectáculos, um dos músicos experimenta a sua dança à frente do auditório vazio, testam-se os sítios onde ficarão os microfones. Uma rotina para qualquer banda em qualquer parte do mundo. Mas só que esta não é uma banda qualquer: "La Vieja Trova Santiaguera" é um grupo de velhotes cubanos, simples homens do povo com trabalhos honestos que se decidiram juntar na fase final da sua vida para fazerem música. O filme decorre como se fosse um concerto, mas em que as imagens em palco num qualquer país ocidental se intercalam com os ensaios numa qualquer casa ou rua de Havana. As entrevistas sucedem-se, sempre com à vontade e simplicidade. Eles são apenas pedreiros ou carpinteiros reformados, não são artistas sofisticados. Mas o que eles fazem vale mais que isso: espalham a sua cultura e as suas origens pelo mundo fora, sem receios nem problemas em ficar longe de casa durante muito tempo. Porque a música canta mais alto (e como eles bem apregoam, até paralíticos faz andar!).O filme está muito bem conseguido, com uma boa alternância entre palco e vida de rua, sem esquecer os pequenos pormenores: o amor sincero à família, os desvarios sexuais de juventude ou uma simples dança numa esquina, tudo envolto numa ternura comovente e numa simplicidade tocante. Aconselha-se para levarem uma miúda e depois do cinema irem dar um pézinho de dança num qualquer clube de ritmos latinos =P