quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Nippon Koma - Digista Vol. VI
Não, não há propriamente aquele cliché de senhores baixos, de óculos, a tirar fotos a tudo e a sorrir por nada.
Estes japoneses que nos estão a invadir estão apenas em celulóide, e alguns são em desenho animado (ou anime, para ser mais correcto).
Durante esta semana (de 8 a 13 de Dezembro), no pequeno auditório da Culturgest, decorre a mostra Nippon Koma, que já vai na sua 6ª edição - creio eu -, e ontem foi dia de eu perder a virgindade nestas sessões.
Documentários e filmes de animação são os dois ingredientes desta mostra, não se focando tanto no anime como também nas inovadoras técnicas de animação de vários artistas contemporâneos, a complementar com filmes clássicos da animação japonesa dos anos 1928-1931, onde se podem ver alguns dos trabalhos de Ofuji Noburo, um dos pioneiros da animação ao qual foi atribuido o nome de um ilustre prémio.
Digista Vol. VI
Digista significa Digital Stadium e é um programa de televisão japonês no qual trabalham alguns dos melhores criadores de arte digital do mundo. É uma competição em que, por programa, são seleccionados 4 trabalhos, um dos quais é escolhido como Digista Best Selection.
Nesta sessão estavam alguns dos melhores trabalhos de 2006 e 2007 dos quais destaco o filme Flock, de Toru Otsubo como Sérgio Best Selection Yah! Ele depois recebe o prémio por correio.
Flock é um filme que anima de uma forma bastante simples e original uma fotografia em que estão vários pássaros a voar. Depois faz o mesmo para outra, e para outra, etc. A ideia, aqui muito bem passada à prática, é ter vários pássaros em fases diferentes do processo de vôo, na mesma imagem, e mover a fotografia rapidamente de forma a que esses vários animais se fundam e criem o movimento completo, que cada um deles só está a elaborar de forma parcial.
Por outras palavras, é feito um transformador que consegue converter o tempo que uma objectiva demora a fechar, num intervalo de tempo que pode demorar o que quisermos.
Destaque também para Fridges, de Fujio Tanabe - a história de um frigorífico que é abandonado perto de uma estrada -, e não me apetece escolher mais, porque acho que a opinião de cada um conta mais.
Os filmes podem ser vistos clicando AQUI. Na barra de cima, ao pé de uns rabiscos nipónicos está o número "2007" o que, com a minha grande perspicácia, consegui compreender que fazia corresponder ao ANO de 2007 (ahhhhh!...), e é nessa secção que estão os filmes que passaram ontem, e mais alguns.
Deixem comentário acerca da vossa preferência.
domingo, 7 de dezembro de 2008
Director's Cut - 4 Dezembro
ou: como a Diana salvou o nosso programa.
http://archive.radiozero.pt/directorscut20081204.mp3
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Director's Cut 2008-11-13
http://archive.radiozero.pt/directorscut20081113.mp3
terça-feira, 18 de novembro de 2008
devil come to hell and stay where you belong
Uma sessão da meia noite é sempre uma sessão especial. Pelos mais diversos motivos: porque serviu para curar uma insónia ou tapar umas horas que teriam sido passadas em frente ao pequeno écran, porque a sala estava vazia, porque já se vai com a companhia habitual das sessões da meia noite, porque o filme só passa mesmo a essa hora...
A meio do documentário Devil come to hell and stay where you belong e entre dois cabeceamentos típicos de quem está cheio de sono e no quentinho, perguntei-me a mim mesma porque raio é que estariam a passar este filme numa sessão da meia noite, e apenas numa sessão da meia noite. As premissas eram: road-movie, no plot, sexo, Bonnie & Clyde, Vincent Gallo, Bruno Dumont e Claire Denis (não confundir com Claire Danes). Mas até agora não tinha nada mais do que uma série de filmagens de um casal a atravessar os Estados Unidos de carro, filmando ora um ora o outro com a câmara a oscilar incessantemente, excepto quando a câmara está fixa e aparecem os dois, ora perto, ora longe. A ausência de diálogos e o ritmo do filme à la Brown Bunny estavam a deixar-me sonolenta.
É que ainda por cima não tinha sido filmado com a graça com que foi filmado o Brown Bunny. Por mais bonitas e inóspitas que as paisagens sejam (e por mais crus que sejam os detalhes dos animais mortos à beira da estrada), e por mais iguais entre si que todos os motéis à beira da estrada sejam, cortar assim as cenas sem mais nem menos não é de todo bonito.
Mas vá. É um documentário. São imagens reais, da vida real. E aquela música dramática e teatral à Michael Nyman que vai surgindo, apenas durante alguns segundos, com frequência aparentemente aleatórea mas afinal parece que crescente, deve ser só mesmo para acordar o pessoal que adormeceu.
Até à última vez essa música surge. A última sequência do filme está maravilhosamente montada, e prende-nos ao écran com uma intensidade tal, para depois nos atirar à cara uma violência de que não estávamos à espera. (Eu sabia! Brown Bunny!) E aí toda a minha visão do filme mudou, foi como se o tivesse rebobinado naquele instante, na minha cabeça. De um filme frio e árido, passou a um filme extremamente orgânico e até a modos que intenso.
Tenho sérias dúvidas sobre a realidade da cena final. Porque num documentário, tudo o que foi filmado aconteceu na realidade, não é? Neste caso, pelo menos para mim, fica a dúvida no ar. Ah e tal, extinção das espécies (ainda estou para perceber a referência a isto que li num artigo sobre o filme algures na net), mas eu acho que apesar de tudo a consciência humana ainda prevalece sobre os actos geralmente associados aos animais. E nem os animais!
E no fim, de novo,

só para nos lembrarmos de que já sabíamos à partida que íamos ver um filme com este nome.
Ok, já chega. Debato-me então: se a cena final é falsa, então para mim todo o filme é falso, e foi feito com um propósito, que eu não sei qual é. Se a cena final é real, então, bem, nem quero pensar. Houve quem sugerisse artist bullshit?, e do pouco que encontrei na net sobre os dois realizadores/actores/etc - Massimiliano & Nina Breeder, estes parecem de facto estar ligados mais ao mundo das galerias de arte do que do cinema. Mas isso não quer dizer nada...
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Ensaio sobre a cegueira - uma questão de identidade
Em primeiro lugar, nunca li o livro (infelizmente), e por isso mesmo não posso fazer as normais comparações à obra de Saramago (mas confesso que depois de ver o filme tomei consciência de que o livro deve ser realmente brilhante!). Bom, tendo em conta este pressuposto, posso dizer que gostei bastante do filme. Apesar do início algo duvidoso, à medida que se desenvolve torna-se num poderoso estudo sobre a condição humana, algo entre o Dogville de Lars Von Trier e o Triunfo dos Porcos. Apesar dos boicotes hipócritas de certas entidades devido à forma como os cegos são retratados no filme como “anormais”, o filme trata esse aspecto apenas como uma metáfora. A forma, não o conteúdo. E aí reside a genialidade do argumento.
E em termos de conteúdo há muito: a esquizofrenia e a desorientação inerentes à perda dum pilar fundamental (e dado como adquirido) na nossa vida, e o consequente retorno ao comportamento primitivo, à luta pela sobrevivência e à satisfação dos instintos mais básicos a qualquer custo. A partir desse estado as personagens partem para um comportamento à lá “porcos”: a construção duma sociedade sem escrúpulos num ambiente anárquico. E aí residem algumas das cenas mais fortes do filme. A falta de ética e do mais básico respeito e amor-próprio: já não sou Eu, sou apenas um corpo por alimentar. E afinal, nestas condições o que é este “Eu”? Num mundo onde os nomes não interessam e onde não existem caras, qual é a nossa identidade? Sem o nosso ritmo de vida normal, profissão, amizades e relações, quem nos define? Para mim, este é o tema fundamental da história e o que mais me impressionou, apesar de se perder bastante no filme: no livro além de não haver nomes (as personagens são identificadas pelas suas classes ou particularidades: o médico, a mulher, o velho, etc.), também não existe a definição visual que o filme dá, o que remete ainda mais para essa falta de identidade…
Há outros pormenores deliciosos: o facto do médico, depois de muita frustração pela forma como dependia excessivamente da mulher, se consegue adaptar e ir às escuras pela cidade; a revelação de, depois de muitos minutos de película em que a mulher do médico nos parece a única minimamente humana, se deixa influenciar pelo ambiente selvagem na cena em que protege a comida dos “lobos” à porta do supermercado; e principalmente o comportamento desprezível dos saudáveis em relação aos cegos, ao desconhecido (com uma breve incursão irónica à religião). A ignorância transforma-se em medo, e o medo em violência, patente em cenas tensas como “o médico à procura de medicamentos” vs. “o soldado stressado”… Por fim, e sem spoilar nada, o final deixa-nos uma sensação, ora de esperança, ora de profunda perplexidade para uma nova realidade: como começar de novo se tudo em que acreditávamos foi desacreditado?
Em termos mais técnicos, a fotografia e o estilo de realização ajudam a uma boa contextualização, apesar de a estética usada ser por vezes um pouco excessiva (mas interessante). Os cenários estão muito bem conseguidos e as interpretações são bastante consistentes (Julianne Moore à cabeça). Talvez o maior defeito que consigo apontar ao filme é uma certa dificuldade em revermo-nos nas personagens, apesar de até preferir este distanciamento como forma de aumentar o conceito de falta de identidade…
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Noiserv ao vivo no S. Jorge, porque neste blog não há só cinema
Confesso que, apesar de conhecer a pessoa que integra este projecto, ainda não tinha ouvido nada.
Antes disto eu apenas perguntei: "mas é como? diz-me o estilo?", todas aquelas perguntas que são óbvias e pertinentes nestes casos. Diziam-me coisas tão díspares que nem vale a pena aqui mencionar, pois só servem para confundir.
Entrei no concerto, rodeado de pessoas que creio poder chamar amigos, ansiosas por ver outro amigo em palco. Isso só por sí valia o bilhete.
Começou a música.
Que posso eu dizer? Que fiquei surpreendido? Sim. Que esperava outra coisa? Sim.
Fiquei surpreendi e esperava outra coisa. Esperava algo medíocre, admito. Fiquei surpreendido porque é bem melhor que o que estava à espera. E "bem melhor" é pouco.
Alguém hoje me disse: "Houve uma pessoa que ouviu Noiserv e esperava uma coisa assim (mão à altura da cabeça), e ouviu algo assim (mão a subir, a subir...)". Ok, concordo.
David Santos aka Noiserv fez uma grande apresentação ao seu álbum, acompanhado de um elenco de amigos que produziram um grande espectáculo, tanto acústico como visual. As imagens de Diana Mascarenhas colocavam o selo de intimidade a esta apresentação, não distraíndo mas sim dando ao público algo para ver além de David rodeado de guitarras e teclados - que tanto usou. Tirou a atenção do público daquilo que, para o artista, é trabalho, deixando-nos apenas com a melodia que é o produto desse trabalho. Não nos interessou o processo, o resultado é bonito.
A simpatia de David fez-se sentir em palco à medida que chamava a companhia de Rodrigo Piedade ao piano e, mais notavelmente Luís (peço perdão por não saber o último nome) aka Walter Benjamin - um multi-instrumentalista que não me deixa de surpreender, tanto pela empatia como pela facilidade com que faz soar bem qualquer coisa, em qualquer contexto. Calculo que se lhe déssemos somente uma colher ele conseguia fazer um álbum à lá Phillip Glass.
Mas falava eu de simpatia e isso lembra-me o momento antes do encore, com um coro composto por amigos de Noiserv - daí eu insistir no termo "simpatia", é a primeira palavra que me ocorre durante todo este post - , num momento que, sendo o fim do espectáculo, nos deixaria simplesmente satisfeitos e com um sorriso parvo na cara. O concerto acabava ali e eu simplesmente ía para casa dormir satisfeito.
Não foi o fim do espectáculo, e posso dizer que - agora, estando em casa - estou satisfeito na mesma. Não foi o fim do espectáculo e ainda bem. Agora quero é ouvir mais.
Ainda não falei nada sobre o tipo de música, mas isto é um blog sobre cinema... o que estavam à espera? Vai haver críticas noutros lados, por isso leiam aí.
Sei é que - e numa tentativa de dar a temática cinematográfica a este post - se fizer um filme, gostaria de convidar Noiserv e Walter Benjamin para a banda sonora. A música já existe... pode ser que me inspire para o filme.
Para quem ainda não apanhou na rádio:
Walter Benjamin: http://www.myspace.com/Iamwalterbenjamin
Noiserv: http://www.noiserv.net/
Sérgio Cruz Serra
A Turma - Entre Les Murs
Laurent Cantet juntou-se a François Bégaudeau - autor do livro que originou este filme - para criar uma obra prima que se funde com a vida real. Se o filme é baseado no livro, este é baseado nas experiências de Bégaudeau como professor em Paris.
Mas quem diz Paris, pode bem dizer Lisboa, Odivelas, Loures, Porto, Amadora, ou qualquer outra escola deste país. Para dar uma ideia, aqui estão alguns relatos de professores deste nosso país:
Será possível que um filme seja tão real? Falassem português e aquela era, em tudo, uma escola no Portugal real. A ver, obrigatoriamente! Em especial por todos aqueles que estão distantes desta realidade.
Susana Tibúrcio Brito, professora no Colégio de Pina Manique
Como professora senti-me feliz ao ver este filme… Achei-o maravilhoso, fantástico, tão próximo da realidade que até aflige… Aquela turma pode ser qualquer uma das minhas turmas, das turmas de qualquer escola deste país… É bom ver finalmente no cinema algo que nos toca tanto…
Luísa Lopes, professora da Escola Secundária D. Dinis em Chelas
Fui ver ontem. Ficámos à conversa muito tempo depois. A nossa escola tem muitos casos decalcados a papel químico. Filme a não perder por todos.
Anabela Gaio, professora
Agora a minha opinião.Para um filme de mais de duas horas, não há um momento de aborrecimento. Posso falar aqui de nostalgia, posso falar aqui de identidade que tive com alguns alunos, posso até dizer aqui que conheço todos os personagens. Vocês também os conhecem. Aqueles vossos colegas do 5º ao 9º ano estão ali todos, versão século XXI.
Senti um choque pela realidade dos nossos tempos, mas ao mesmo tempo não me surpreendeu. Desde o famoso episódio do "dá-me o telemóvel", que temos vindo a ser brindados com novelas do mundo estudantil. Para nos actualizarmos, nada melhor que o public service anoucement de 128 minutos dado por este filme.
Por momentos sorrimos, por momentos ficamos nostálgicos, por momentos ficamos a torcer ora pelo professor ora pelos alunos - mas compreendemos todos.
Gostamos de pensar que temos a maturidade do professor e a inocência e espirito rebelde dos alunos. Senão este filme não teria sentido. Mas graças a isto tudo, tem. E ainda bem.
Entre les murs, distribuído pela Midas Filmes, em exibição no Londres, El Corte Inglés, Alegro de Alfragide e Cascais Villa na zona de Lisboa, e no Lusomundo Mar Shopping e UCI Arrábida na zona do Porto, entre outros. Devia estar em mais.


