terça-feira, 18 de novembro de 2008

devil come to hell and stay where you belong

A linha que separa um documentário de um filme de ficção pode ser muito ténue: acho que este foi o pensamento que mais vezes me passou pela cabeça durante o meu primeiro CPH:DOX - Festival Internacional de Documentários em Copenhaga. O segundo foi: Que selecção... que festival!

Uma sessão da meia noite é sempre uma sessão especial. Pelos mais diversos motivos: porque serviu para curar uma insónia ou tapar umas horas que teriam sido passadas em frente ao pequeno écran, porque a sala estava vazia, porque já se vai com a companhia habitual das sessões da meia noite, porque o filme só passa mesmo a essa hora...

A meio do documentário Devil come to hell and stay where you belong e entre dois cabeceamentos típicos de quem está cheio de sono e no quentinho, perguntei-me a mim mesma porque raio é que estariam a passar este filme numa sessão da meia noite, e apenas numa sessão da meia noite. As premissas eram: road-movie, no plot, sexo, Bonnie & Clyde, Vincent Gallo, Bruno Dumont e Claire Denis (não confundir com Claire Danes). Mas até agora não tinha nada mais do que uma série de filmagens de um casal a atravessar os Estados Unidos de carro, filmando ora um ora o outro com a câmara a oscilar incessantemente, excepto quando a câmara está fixa e aparecem os dois, ora perto, ora longe. A ausência de diálogos e o ritmo do filme à la Brown Bunny estavam a deixar-me sonolenta.

É que ainda por cima não tinha sido filmado com a graça com que foi filmado o Brown Bunny. Por mais bonitas e inóspitas que as paisagens sejam (e por mais crus que sejam os detalhes dos animais mortos à beira da estrada), e por mais iguais entre si que todos os motéis à beira da estrada sejam, cortar assim as cenas sem mais nem menos não é de todo bonito.

Mas vá. É um documentário. São imagens reais, da vida real. E aquela música dramática e teatral à Michael Nyman que vai surgindo, apenas durante alguns segundos, com frequência aparentemente aleatórea mas afinal parece que crescente, deve ser só mesmo para acordar o pessoal que adormeceu.

Até à última vez essa música surge. A última sequência do filme está maravilhosamente montada, e prende-nos ao écran com uma intensidade tal, para depois nos atirar à cara uma violência de que não estávamos à espera. (Eu sabia! Brown Bunny!) E aí toda a minha visão do filme mudou, foi como se o tivesse rebobinado naquele instante, na minha cabeça. De um filme frio e árido, passou a um filme extremamente orgânico e até a modos que intenso.

Tenho sérias dúvidas sobre a realidade da cena final. Porque num documentário, tudo o que foi filmado aconteceu na realidade, não é? Neste caso, pelo menos para mim, fica a dúvida no ar. Ah e tal, extinção das espécies (ainda estou para perceber a referência a isto que li num artigo sobre o filme algures na net), mas eu acho que apesar de tudo a consciência humana ainda prevalece sobre os actos geralmente associados aos animais. E nem os animais!

E no fim, de novo,



só para nos lembrarmos de que já sabíamos à partida que íamos ver um filme com este nome.

Ok, já chega. Debato-me então: se a cena final é falsa, então para mim todo o filme é falso, e foi feito com um propósito, que eu não sei qual é. Se a cena final é real, então, bem, nem quero pensar. Houve quem sugerisse artist bullshit?, e do pouco que encontrei na net sobre os dois realizadores/actores/etc - Massimiliano & Nina Breeder, estes parecem de facto estar ligados mais ao mundo das galerias de arte do que do cinema. Mas isso não quer dizer nada...

Ana

1 comentário:

Sérgio Cruz Serra disse...

:D

Ok, afinal vou tentar ver o filme...
Gosto de twists, e parece que o que acabaste de descrever foi um.
A cena de termos no final um flashback do filme todo - interior, na nossa cabeça - é algo que poucos filmes conseguem e, quando o fazem, temos vontade de falar deles durante uns tempos.

Obrigado por participares. :)